Do outro lado

Um conto sobre a jornada para o futuro ou sobre como driblar águias famintas na estrada.

Writing
Written by
Débora Backes Barboza
in
Portuguese
Published on
Aug 3, 2023

Débora Backes, 2023.

O chá de camomila tremia dentro da xícara de vidro. Minhas mãos não queriam cooperar com a ideia de tranquilidade que meu rosto queria passar. Cássia já havia percebido o movimento do líquido sem graça dentro do recipiente triste. Mas, sem palavras, combinamos de deixar aquele teatro inofensivo seguir em frente. “Podemos ir indo quando tu terminar”. Assenti com a cabeça enquanto apoiava a mão na barriga. Coloquei a xícara sobre a mesa. O tilintar da porcelana sobre o vidro quase abafou os tiros lá fora.

O carro de Cássia era um Celta dois mil e um pouco mais que dez. Duvidava que aquele pedaço de história ia dar conta da travessia. Cássia provavelmente pensava o mesmo. “Quer ajuda pra entrar?”. Neguei ainda com a mão na barriga. Entrei. Ela terminou de colocar nossas coisas no banco de trás. “Pronta?”.

Se tivesse escolha, não estaria. Se tivesse escolha, estaria em casa com as pernas cansadas pra cima e o bucho cheio de bolacha recheada com as migalhas caindo nas minhas agora fartas tetas. Mas a situação nos últimos meses se tornara insuportável em Porto Alegre. No país todo. Todos os dias protestos. Todos os dias mortes. Balas com destinos certos encontravam vidas cheias de esperança. Esse era o maior medo de Cássia.

“Aqui, toma água!”. Peguei a garrafa ainda olhando para a cidade que ia ficar no meu passado. Estava sendo obrigada a levar meu futuro a outro lugar. Quando fanáticos invadiram Brasília, não dei bola. Eles já haviam feito isso antes, há um tempo atrás, em 2023. Não havia de ser nada. Cássia entendeu tudo muito rápido. Agora ela engolia a estrada com os olhos como se ansiasse fazer parte do destino. Meus olhos resolveram poupar energias. Cássia precisaria de mim para passar pelos postos de revistas.

As fardas azuis faziam parte da paisagem já havia dois anos. Em uma coreografia bem ensaiada, eles se moviam pelas estradas e cidades como um grupo de águias famintas. Não queriam ninguém deixando o país. Mas se conseguíssemos chegar do outro lado, não havia muito o que pudessem fazer. Ainda mais eu estando como estava. Não queriam escândalos nem desavenças com o resto da vizinhança. Estava tudo sob controle e todos estavam felizes. Essa história de fanáticos religiosos tomando o poder era ficção criada nas redes sociais.

Paramos. “Senhoras, saiam do carro por favor”. O azul escuro da roupa ainda me era estranho. Mas não mais do que o grande crucifixo costurado no uniforme. Inventei uma dificuldade física para me levantar. Minha entrada em cena precisava causar comoção. O oficial olhou para minha barriga com cara de não entendo. “Identidade e destino, senhoras”. Saquei meus documentos com as mãos e os olhos trêmulos. Maria da Graça Ferreira dos Santos. Casada com Francisco José dos Santos. “E onde tá teu marido?” Cássia foi rápida, como havíamos ensaiado. “Com a mãe doente, em Santa Maria.” “Viagem longa no teu estado, senhora”. Cássia falava por mim. “Eu sei senhor. Mas a criança não pode nascer longe do pai”. Coloquei a mão na barriga e segurei as lágrimas. O guarda respirou fundo. “Ok, Dona Maria e Dona Ana, podem seguir”. Quando eles sumiram atrás da gente, dei uma risada discreta. “Não te anima demais. Vai ter muita chance ainda pra mostrar teu talento”, disse Cássia. Pela primeira vez desde que começamos a viagem à fronteira, me senti leve.

O primeiro esboço do plano apareceu em nossas conversas há mais ou menos um ano. Depois que a ONG “fechou”, Cássia e os colegas seguiram fazendo o que podiam para denunciar o governo a jornais internacionais. Até que Lucas desapareceu. Depois foi Mariana. Depois Adriana. Cássia não podia ser a próxima. Os campos de refugiados brasileiros na Argentina e no Uruguai eram uma realidade, todos sabiam. Mas como chegar até lá ainda era uma ficção para nós. Transportes clandestinos. Caminhões de carne disfarçados. Trilhas pelas matas. Mas chegar à fronteira não era garantia de conseguir cruzar. A não ser que a gente tivesse um bom motivo.

"Se tivesse escolha, não estaria. Se tivesse escolha, estaria em casa com as pernas cansadas pra cima e o bucho cheio de bolacha recheada com as migalhas caindo nas minhas agora fartas tetas. Mas a situação nos últimos meses se tornara insuportável."

Santa Maria a 10 km. Metade do caminho. “Vou ligar pro pai”. Havia anos que meu pai já não estava entre nós. Fiquei sentada no quentinho do Celta enquanto via Cássia caminhar de cima pra baixo com o celular na mão. Não falava com ninguém. Estava nervosa. Claro que acontecia muito. Pagar o coiote e ele desaparecer – por má vontade ou por má sorte. “Vamos se trocar e tomar café, daí a gente vê”.

Usamos o Celta mesmo de camarim. Os novos vestidos longos de mangas compridas e os cabelos longos soltos faziam a gente desaparecer na paisagem. Já tínhamos pistas de Porto Alegre sobre possíveis ajudantes, mas precisávamos ter certeza de que nos entenderiam. A padaria que nos indicaram parecia ter um novo dono que assustava com sua camisa branca, crucifixo no pescoço e arma na cintura. No salão de beleza quando pedimos para marcar uma hidratação com a Rose, a recepcionista nos despachou com medo nos olhos.

Cássia percorria as possibilidades em sua cabeça. Voltar a pegar o carro seria arriscado. Mesmo que conseguíssemos outra placa, o modelo antigo chamava muita atenção na estrada. “Vamos descansar, e amanhã cedo eu volto a pensar”. Hotel Recanto da Prenda pareceu triste o suficiente para passar despercebido. Ali logo chegaram Isabel Alves Cruz e Catarina Alves Cruz, ambas nascidas em São Borja e voltando para casa para ver “os véio”.

Entre as feias paredes verde musgo, o chão frio de azulejo branco e o velho balcão de madeira, uma figura pequena de maquiagem forte, laquê nos cabelos e unhas cor de vinho nos recebeu sem nos olhar. Me sentei numa poltrona de couro abatida. Passei a mão na protuberância debaixo do meu vestido. Movimentos vinham de encontro à minha mão. Era este algo vivo que me trouxera até ali e que me faria atravessar a fronteira. Era apenas isso para mim: algo vivo. Talvez devesse me preocupar em não conseguir sentir uma conexão com ele. Mas não me preocupava. “Quantos meses de barriga?”, a perua tirou seus óculos de grife falsos para me olhar direito.

A fila de refugiados brasileiros aumentava a cada dia. A fronteira se tornou um lugar turbulento. Centenas de pessoas se amontoavam na ponte do Rio Uruguai, na esperança de cruzarem e serem levadas logo a algum campo de refugiados dentro da Argentina ou, até mesmo, conseguir uma carona até o Chile. Mas havia boatos de pessoas sequestradas e cadáveres encontrados nas margens do rio. Era preciso passar rápido, cruzar rápido antes de desaparecer. Quando soube disso tudo, também soube que havia um jeito. Como no naufrágio de um navio, mulheres e crianças poderiam ser salvas primeiro. E uma mulher carregando uma criança dava acesso direto ao bote salva-vidas.

Quando me viu com a barriga pontuda, a dona do hotel entendeu tudo muito rápido. Ela sabia do que sabíamos. Depois de nos mostrar o quarto, nos chamou pra tomar um mate e comer bolachas de mel. Em uma passada de cuia, seus dedos enrugados encostaram nos de Cássia e lhe entregaram um pedaço de papel com um número de telefone.

“Tem certeza de que quer fazer isso?”. Claro que eu não tinha certeza, mas era a única forma de nos tirar do Brasil antes que nossos corpos fossem encontrados em alguma cova rasa. Engravidar seria fácil. Todos os meus rolos queriam transar sem preservativo. Com essa fase do plano, não me preocupava. “Mas e depois?”, depois a gente vê. O importante é atravessar.

O cara devia ter uns 20 e poucos anos, mas como Alberto Santos Martinez, marido de Catarina, ele teria mais alguns anos. Seus braços definidos, os dentes brancos perfeitos e a pele macia me deixaram atordoada. Há meses não sentia mais aquele formigueiro no meu corpo. Podia ser a adrenalina. Estava satisfeita com o novo disfarce. Saímos ao meio-dia em um carro cheio de presentes para nossos familiares em São Borja. Coloquei a cruz pendurada no retrovisor para nos proteger pela viagem. O adesivo “Aqui defendemos os bons costumes” no porta-malas dava o toque final.

A cada parada, Alberto mostrava amorosa preocupação com “seu pequeno”. Eu tinha dificuldade no improviso quando sua mão encontrava minha barriga e seus olhos me reverenciavam como se estivéssemos apaixonados desde o Ensino Médio. Cássia ficava apreensiva com aquelas cenas e sempre nos interrompia. “Quer uma bolachinha?”, “Tá com sede?”. Enquanto isso, a estrada que até Santa Maria estivera calada, começava a contar histórias como as nossas.

Minha garganta segurou o ar quando entramos no concreto da Ponte Internacional da Integração. Famílias inteiras largavam seus carros e se metiam a correr segurando nas mãos os pedaços de seu passado. Nomes ecoavam pelo rio o tempo todo. Vi uma mulher agachada chorando com um nome entre os dentes “Marcos! Marcos! Cadê tu, Marcos?”, um idoso sacudia a cabeça e caminhava com sua maleta na direção contrária, um homem alto como uma árvore caia para os lados com uma garrafa na mão. A quantidade de roupas velhas, comida estragada, celulares quebrados aumentava ao longo do caminho. Não havia mais espaço, tivemos que descer. Alberto me segurou pelo braço e começamos a caminhar entre os carros empoeirados e os ainda novos.

Vimos a fila. Pessoas se empurravam violentamente na ânsia de conseguir uma vaga para o futuro. Alberto tirava as pessoas do caminho “Deixa ela passar! Respeito, por favor!”. Alguns nos olhavam com inveja. Outros com compaixão. Chegamos numa fila cheia de mulheres com seus pequenos. Os choros eram assustadores. Penetravam meus ouvidos como agulhas. Me abracei em Cássia.

Se passaram apenas alguns minutos talvez, mas já era dia de novo. Os gritos não haviam parado. Um oficial argentino pediu nossas identidades. Meus dedos quase quebraram a mão de Cássia neste momento. “Sólo los dos. La señora tiene que volver al final de la fila.”, “Como assim? Ela é minha irmã”, “Compriendo. Pero sólo los cónyuges pueden pasar juntos.”. Alberto não sabia o que dizer. Eu quis desmaiar, mas não consegui. Cássia colocou as mãos na minha barriga e encostou sua testa na minha. Os olhos cheios como o rio embaixo dos nossos pés. “A gente se vê logo, Tássia. Do outro lado”.

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