CB Talks to Tássia Reis in Psicotrópicos Festival

No CB Talks • Psicotrópicos, o Cena entrevistou Tássia Reis, cantora e compositora brasileira em turnê pela Europa. A conversa sobre a vida, a carreira e os planos da artista aconteceu no dia 15.07.2023 no Festival Psicotrópicos, logo após ela descer do palco depois de um show eletrizante.

Cultural Production
Dance
Music
Written by
Luiza Maldonado & Mateus Furlanetto
in
Portuguese
Published on
Aug 8, 2023

Tássia Reis é cantora e compositora natural de Jacareí, interior do Estado de São Paulo. Iniciou sua carreira musical em 2013 e seu som tem diferentes influências musicais, como o hip-hop, o R&B e o soul, além de contar sobre a sua própria história e vivências. Uma das primeiras rappers da nova música brasileira, com letras que abordam questões sociais, raciais e de gênero, ela tem ganhado cada vez mais reconhecimento e destaque. Em 2019, lançou o seu álbum "Próspera", que, além de ter sido aclamado pela crítica especializada, foi considerado pelo prêmio APCA um dos melhores álbuns do ano.

Tássia Reis: Eu sou natural de Jacareí-SP, mas sou radicada na cidade de São Paulo. Estou lá já faz uns 13 anos, no mínimo, desde antes de ter uma carreira musical. Então, São Paulo também já faz parte da minha trajetória. Tenho 33 anos, vou fazer 34 esse ano, sou leonina e me considero uma criativa. Eu conheci o universo da arte através, na verdade, da escola de samba da minha cidade, e todo o desenrolar da comunidade do samba ali acabou me levando para o hip-hop. Na época eu não entendia que eu já estava fazendo música, eu achava que era uma coisa muito de cultura e comunidade, o que de fato é também. Mas aí eu acabei indo para o hip-hop. Comecei a dançar primeiro, me tornei uma dançarina, dancei alguns anos. E depois eu comecei a escrever, e pra mostrar o que eu estava escrevendo, já com melodia, comecei a cantar. Aí descobri que eu podia cantar e assim a minha carreira artística foi acontecendo e crescendo. E hoje a gente está aqui, né? É isso, resumindo.

Luiza Maldonado: Conta mais detalhes de como é que foi o começo da sua carreira. Por que você decidiu ser cantora?

Tássia: Olha, eu fui pra São Paulo e eu já tava dançando há uns sete anos, mais ou menos. Eu dançava hip-hop, danças urbanas, a gente chamava até então. E aí eu fui percebendo que os caminhos que a dança podia me proporcionar dentro disso não eram os caminhos que eu queria e eu não estava contente com as possibilidades que eu poderia ter. E aí eu decidi estudar. Eu também estava meio desiludida amorosamente, meio chateada. Então eu falei: "ah, eu não quero ficar aqui". E também é essa sensação de, apesar de ser muito grata pela minha cidade, pela minha região (eu gosto de marcar esse território, esse lugar do mapa), eu também me sentia muito, tentando me encaixar numa cidade pequena, sabe? Pra uma artista como eu, pra uma pessoa como eu, que é extravagante, grandona, fica apertado.

E aí eu queria ver outras coisas, eu queria ver o mundo. Na época eu não tinha toda essa noção, mas eu sabia que eu precisava ir. Então eu fiz o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e consegui uma bolsa numa faculdade privada pra fazer tecnólogo em design de moda, e foi por isso que eu fui pra São Paulo. Eu escolhi um monte de cursos que tinham a ver comigo: moda, teatro, dança. Mas eu fiz meio sem estudar, vou ser bem honesta, eu não estudei pra prova. Mas eu consegui uma bolsa de 100%. Então eu fui embora da minha cidade.

Mateus Furlanetto: E você foi embora e você chegou na Europa. E essa não é sua primeira turnê europeia, né? Eu queria que você falasse como é que você compara a plateia dos seus shows no Brasil e aqui na Europa?

Tássia: Olha, é só a minha segunda tour europeia. Então eu acho que ainda tenho muito chão pra percorrer pra poder fazer uma análise mais completa sobre isso. Mas é muito interessante. Em países lusófonos, especificamente em Portugal, que eu fui pela primeira vez esse ano (da outra vez eu não tinha ido a Portugal), foi muito interessante ver a saudade, a nostalgia que as pessoas tem em relação ao Brasil no momento em que elas conhecem o artista ou a artista, que elas vão ao show. Então, eu fiquei com essa sensação de nostalgia em relação ao público brasileiro que está na Europa.

Mas também fiz shows em lugares que tinham pouquíssimos brasileiros, como Copenhagen, por exemplo, na Dinamarca. Foi o meu segundo show lá e ambas as vezes tinham pouquíssimos brasileiros. A galera não entende nada de português, mas eu costumo dizer que a música é uma linguagem universal. E a galera vibra muito e é muito interessante ver como as pessoas respondem à música, à melodia, à batida, a tudo o que está acontecendo. Vibram do mesmo jeito, né? Nas músicas que são mais fortes, estão vibrando forte, nas músicas que são mais melancólicas, estão ali melancólicas, curtindo também. Então a música é uma linguagem universal e eu senti isso em Copenhagen e senti isso no Schaffhausen na Suíça ontem. A galera tava muito vibrando e sentindo, apesar de não entenderem uma palavra do que eu estava falando em português. Acho que esse é o poder da música, sabe? E aqui (no show em Berlim) já tinha uma galera mais brasileira, apesar de ter pessoas de vários outros lugares também.

Acho que o mais legal de fazer tudo é poder ver como as pessoas reagem ao conhecer o seu som, a te ver no palco, porque é muito diferente de ouvir no app de música, é muito diferente de ouvir o disco (eu particularmente prefiro ao vivo do que no disco). Então eu acho que essa experiência é muito interessante e eu adoro um desafio também. Tipo, essa coisa de ver como é que a galera vai dançar. Por exemplo, dizem que em Copenhagen a galera não dança, mas nos meus dois shows todo mundo dançou muito. Então é muito legal ver como a galera reage ao molho brasileiro, ao sauce brasileiro, e eu fico muito feliz.

Tássia Reis at CB Talks • Psicotrópicos | Photo by Rafaella Rios

"Talvez eu nem sabia a direção que estava tomando, mas estava ali com muita vontade de realizar. Então, eu me sinto muito orgulhosa hoje em poder reconhecer isso, a importância do que eu venho criando para o mercado da música, o espaço que eu venho batalhando pelas mulheres pretas, pelas pessoas de periferia, pela galera de quebrada também. Me sinto feliz e muito honrada."

Luiza: Ontem a gente teve a oportunidade de assistir ao show da Liniker, e vocês tem uma parceria maravilhosa na música "Diz Quanto Custa". E hoje a gente assistiu ao seu show, parabéns, foi demais, a energia estava maravilhosa! Nós gostaríamos de saber mais sobre o processo de criação nas suas parcerias. Como foi, por exemplo, essa parceria com a Liniker?

Tássia: Bom, Liniker é minha amiga, a gente é parceira de longa data desde o começo da carreira dela. Uma vez ela me mandou mensagem no Facebook, mas eu não sabia quem era ela. Eu sabia que tava rolando uma música que se chamava "Zero", mas eu não sabia de quem era. Então ela me mandou mensagem e eu respondi, porque eu sou fofa, eu gosto de trocar ideia, né? Hoje em dia, infelizmente, eu não consigo mais trocar tanta ideia assim nas redes, mas há sete anos atrás era mais fácil. A gente começou a se falar, bateu muito a vibe e a gente decidiu se encontrar. Desde então a gente nunca mais desgrudou. A gente tem algumas parcerias, né? "Diz Quanto Custa" é só uma delas, que eu canto também na música. Já "Baby 95" eu compus junto com ela e a gente foi indicada ao Grammy Latino e foi lá em Las Vegas, foi tudo!

As minhas conexões são muito afetivas, sabe? Tem muito a ver com amizade. Na verdade, tem muito a ver com afinidade, acho que nem é a amizade em si. Porque tem que bater, você tem que ouvir a música e falar: "eu sei do que você está falando, eu posso agregar, sabe?". Então pra mim, que sou uma artista independente, tenho essa construção de ir fazendo as coisas e ir entendendo também o processo delas, como elas funcionam. Porque a minha a formação musical não é ortodoxa, eu não estudei teoricamente música, eu só tinha um instinto muito grande de compor com melodia e letra ao mesmo tempo. Inclusive, ser indicada ao Grammy Latino por uma composição pra mim é uma coisa muito importante. Às vezes a gente se sente apagada e invisibilizada (porque muitas vezes a gente é pela sociedade), mas existe um conhecimento, um estudo que, mesmo não sendo tradicional, ele existe, porque existe uma pesquisa e existe um talento também. Então, acho que ser indicada ao Grammy pode às vezes não significar muita coisa, mas nesse momento significa, porque tem uma galera lá que estudou a vida inteira pra fazer a música e não foi indicada, entendeu? Eu não gosto muito de prêmios, na verdade, mas ao mesmo tempo eu quero ganhar porque é importante. Aquelas contradições da nossa vida.

Mas é importante a gente poder visitar espaços e lugares assim, porque às vezes a gente, ou pelo menos eu, Tássia, como uma mulher preta, tenho que brigar muito pra conseguir uma coisa que devia ser minha há muito tempo, sabe? Então, acho que as minhas parcerias são relacionadas a isso, mas eu também tenho muita liberdade pra ser independente, entendeu? Eu acho que é uma faca de dois gumes. Eu posso fazer o que eu quiser porque não tem ninguém mandando, mas também ninguém vai botar dinheiro ali. Mas aí eu ponho, né, porque eu aprendi a fazer isso. Ponho meu dinheiro lá e vou fazer.

Photo by Caroline Lima

Mateus: Tássia, você celebra dez anos de carreira em 2024, é isso?

Tássia: Não, é nesse ano (2023) que eu estou fazendo dez anos de carreira. Na verdade, eu acho que eu podia contar até mais tempo, mas eu conto desde o meu primeiro lançamento, que foi "Meu Rap Jazz", minha primeira música. Então eu conto desse momento, não conto do momento que eu comecei a escrever porque ele é indeterminado. Eu acho que eu poderia contar desde o momento que eu decidi que seguiria uma carreira na música, que foi um ano antes, em 2012. Nessa época, eu já tinha escrito um monte de músicas e falei: "vou ter uma carreira". Tinha terminado o curso de moda e isso não tinha me dado nada: nenhum job, nenhum trabalho, nada. Então senti que eu tinha que fazer música, senti aquela energia, senti a informação vindo aí do universo dos orixás, sei lá. Não sei quem falou comigo, mas falaram pra eu fazer música. Então eu decidi que faria música, e menos de um ano depois, lancei a minha primeira. Então, eu conto daí.

E é muito interessante isso. O fato de eu estar descobrindo que eu podia fazer música fez com que eu experimentasse muito, e eu fiz disso uma plataforma pra poder entender quem sou eu musicalmente. Eu sou uma pessoa que tem muitas informações juntas, é uma miscelânia de coisas: é rap, é samba, é soul, é funk, é jazz, é dança; é piada, porque eu sou engraçada também. Então, tem muita coisa misturada aí, e talvez por estar descobrindo essa nova jornada artística naquela época, como cantora, como uma artista da música, eu quis experimentar muito. No primeiro momento, eu acho que eu não tinha a malícia de poder dizer pra mídia e pra sociedade que eu era uma artista versátil. Então, acho que me colocaram muito na caixinha do rap. Mas eu não deixei de experimentar, independente disso. Eu acho que pelos meus trabalhos, dá pra ver que tem muita experimentação musical, em vários universos. E eu amo fazer isso, é muito legal, porque pra mim eu estou descobrindo. São dez anos nessa trajetória e eu continuo descobrindo coisas e redescobrindo, inclusive.

Entendi, por exemplo, que a escola de samba foi fundamental na minha vida. Quando eu cheguei na escola de samba, eu queria desfilar na comissão de frente. Imagina eu, com 14 anos, acabando de chegar e pedindo pra desfilar na comissão de frente. Riram da minha cara e me contaram que a comissão estava fechada, mas que precisavam de gente na bateria. Então eu fui e esse foi o meu primeiro contato com a música também. Mas na minha cabeça era só uma coisa de comunidade, porque a gente ia ao ensaio, ajudava a fazer fantasia, fazia o que precisava (era uma cidade pequena onde o carnaval não era uma coisa tão rentável). Então, eu demorei pra entender que o samba veio pra mim muito antes do rap, que já estava na minha família, inclusive. E eu acabei indo com minhas próprias pernas pra uma escola de samba. Eu era uma uma adolescente meio doidinha, com certeza, mas cheia de vontade de viver, de trocar, de aprender as coisas. Então eu acho que venho descobrindo muitas coisas ao longo desses dez anos, e é uma delícia saber que tem mais coisa. Parece que eu tô sempre começando, sabe? Mas também eu acho que é importante reconhecer o que já foi feito. Eu não sou um artista mainstream no Brasil, mas também não sou tão underground mais. A gente costuma chamar de middle stream, talvez. Porém, eu sei que meu som influenciou muita gente que é inclusive mainstream hoje e isso é muito louco de pensar. O poder, não meu, mas do meu som, da música que surgiu, sabe? Que sem querer, querendo, abriu caminho de alguma forma, no mato fechado com o facão na mão. Talvez eu nem sabia a direção que estava tomando, mas estava ali com muita vontade de realizar. Então, eu me sinto muito orgulhosa hoje em poder reconhecer isso, a importância do que eu venho criando para o mercado da música, o espaço que eu venho batalhando pelas mulheres pretas, pelas pessoas de periferia, pela galera de quebrada também. Me sinto feliz e muito honrada.

Luiza: Pra terminarmos, uma pergunta clássica: qual é a sua dica ou qual é a sua deixa aqui pra quem está começando na música?

Tássia: É muito difícil dar dicas, mas vou dar duas. Primeiro, acho que é importante fazer uma auto-análise: entender quem você é, suas habilidades, o que você é capaz de fazer e até o que você precisa de ajuda pra fazer. Acho que isso é muito importante, não ser arrogante nesse sentido, sabe? Todo mundo precisa de ajuda em alguma coisa, e o quanto antes você identificar no que você precisa de ajuda, mais eficiente vai ser.

A segunda coisa é, se você for uma pessoa bem proativa, que tem sede de aprender que nem eu tenho, aprenda um pouquinho de cada coisa. Se você souber um pouquinho de cada coisa dentro do seu setor, ninguém vai passar a perna em você, vai ser menos difícil. Mais fácil, eu não sei, mas pode ser menos difícil de você conseguir chegar a lugares assim, e pode chegar com mais firmeza, mais pé no chão. Porque é muito difícil ter uma carreira, e falando da música especificamente, são muitos detalhes que muitas vezes as pessoas não falam. Então, acho que ficar ligada no que está acontecendo no mercado em que você está inserido e acompanhar pessoas que fazem coisas diferentes (e não só o que você faz) pode te ajudar muito na sua caminhada e te ajudar a não sofrer tanto. Vai sofrer sim, mas talvez dê pra sofrer um pouco menos.


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